18 de julho de 2017

Nus, em nossos quartos






estamos
a luas
eu e você
eles estão
a sóis
sem quartos
crescentes
sem cavalo
e São Jorge
não sabem
matar dragões
: falta-lhes a
intimidade da
escuridão.

Íntima prece





a prece
entre os
pequenos
lábios
: íntima

a vulva santa
e seu manto
de carne aberto

nudez e gozo: amém


13 de julho de 2017

Grstação








Dar à luz a Alma. Este um caminho cada vez mais claro no meu percurso humano-profissional. Já li em algum lugar a expressão "trocar de alma" como um quase sinônimo do que estou a dizer. Mas não é a mesma coisa. Não se troca de alma, no meu entender. Penso eu que a Alma precisa nascer. Vir ao mundo. E falo sobre os que possuem Alma. Porque sabemos das carcaças vazias dela, para quem só resta o fim de linha para o corpo e sua absorção pela terra. Mas há uma multidão que precisa engravidar de si mesma e dar à luz a Alma. Não é uma tarefa fácil não. Alguns são fecundados e interropem a gravidez por medo. Outros passam por um "aborto espontâneo", que, na verdade não é assim tão espontâneo. Faltam os cuidados devidos. E faltam por desconhecimento. É preciso que se ajude. Conheço alguém que recentemente engravidou. O Ego fez de tudo para impedir a gestação. A Alma estava ali. Houve muitas lágrimas. No processo, já alguma cura. Mas a gravidez acabou por ser interrompida. A consciência, no entanto, foi ficando mais presente. Sinto-me parteira de Almas em muitos momentos. Inclusive e principalemnte da minha própria Alma. No caso em questão, estive presente tanto quanto pude, todas as vezes em que fui solicitada. Mas, por fim, a gestante admitiu que ainda não estava pronta. Ser mãe de si mesmo exige uma abertura, uma disponibilidade grande. "Não me sinto pronta!", ouvi, depois de tantos meses. E há que se respeitar. Ninguém pode levar uma gravidez adiante em meio a conflitos profundos. Adia-se, como é de direito. Mas, uma vez tendo vivenciado os sinais da gravidez - ainda que se interrompa - , é inevitável o processo. Hoje ainda não, mas amanhã. E registro que os cuidados e sustos e alegrias são os mesmos, numa frequência mais alta, no entanto. Sangramento, repouso, alimentação saudável ( e aqui entendamos "alimentação" como algo que está para além do que se ingere como comida). Não há a preocupação quanto ao "sexo do bebê". Quando nasce uma Alma, o imprevisível de uma fisionomia. Algumas Almas nascem sob o espanto de quem as gerou. Às vezes em nada parece com a mãe. E isso porque a gestante, o gestante, não conhecia seu próprio rosto. Mas podemos falar, sim, em partos naturais, cesarianas e etc. Embora em desuso, muitas Almas chegam ao mundo a fórceps. Mas chegam. E a verdade que, depois de parir, ninguém é mais o mesmo. Com dor ou sem dor, na tempestade ou na calmaria, ter dado luz à Alma faz toda e completa diferença. Começa-se, enfim, a existir. E percebe-se que, antes, o que se chamava de vida era apenas um simulacro. Talvez nem todos possam ver, mas as asas estão ali agora. Quando o parto se dá só no nível biológico, um choro, a respiração. No nível da Alma, o verdadeiro nascimento, um leve ruflar de asas invisíveis. Os caminhos que se apontam são inúmeros e diversos. E é com profunda alegria que entoamos as cantigas de ninar, nos momentos em que ela - a Alma - precisa adormecer por algumas horas. Para acordar sempre Alma. 

Ser ponte








Há uma grande responsabilidade em ser Ponte. Um tantinho abaixo, uma postagem em que me digo parteira de Almas, e da minha própria, sobretudo. Mas há outras imagens. A imagem da Ponte é outra que me é significativa. Para alguns, ponte pode ser apenas ponte. Mas não é bem assim. Ponte se deita sobre margens opostas e possibilita o caminhar. As margens opostas - na maioria das vezes - estão solidificadas dentro da gente, por inúmeras e importantes razões. Ser Ponte é ser palavras, mas também silêncio, nos momentos devidos. Sem dizer palavra, às vezes me deito. Cabeça e pés sem divergências. Respiração tranquila. Semblante sereno. As margens se encontram através de mim. Através e em mim. Não me mexo. Não estranho. Não há nada que sinalize conflito. Só deito. E ele e ela olham, com um tanto de incerteza que se dissipa ao me ver estendida e plácida. Sinto o ressoar de passos inseguros, mas sem recuos. Em horas, dias ou meses, ele ou ela consegue alcançar o outro lado. Respira. Foi possível. E descobre que pode ir e voltar. A qualquer tempo. Em algum momento, desapareço, silenciosamente. Ele ou ela já sabem que as margens opostas já não se opõem. Não estou mais lá. De algum lugar, observo passos firmes que vão e voltam. No meu lugar, uma Ponte outra. Definitiva. Onde eu estive, já não há mais Abismo. Espero mais adiante, para deitar-me outra vez, se preciso for. Alegra-me o caminhar livre!